Há uma actividade - situada entre a ciência e o desporto - em que ainda é possível
descobrir espaços desconhecidos. Essa actividade chama-se Espeleologia e leva-nos
à aventura de descobrir os segredos guardados nas entranhas da Terra.
Debaixo do chão que pisamos existe um mundo apaixonante, imerso numa obscuridade misteriosa e muitas vezes de difícil acesso. Esse mundo encontra-se repleto de maravilhas
naturais, formações fantásticas, cores inesperadas, animais invulgares e depósitos
de culturas ancestrais ali enterradas pelo tempo. Os seus descobridores são
os Espeleólogos, pessoas cuja emoção maior é penetrar em grutas virgens e
aventurar-se em mundos subterrâneos desconhecidos. Todos nós podemos fazer
Espeleologia (pelo menos como principiantes), mas para isso é necessário ter
uma formação específica que, felizmente, hoje em dia é bastante acessível.
E praticar esta actividade é uma experiência fascinante! Entrar para uma gruta
por uma passagem pouco maior do que a nossa cabeça, contornar todos os obstáculos
e escorregar na lama "auto-colante" até chegar a uma galeria ampla, enfeitada
por estalactites e estalagmites brilhantes é sem dúvida uma aventura apaixonante.
Mais apaixonante ainda será quando já se tem os conhecimentos necessários
para mergulhar num lago subterrâneo para procurar fragmentos de cerâmica e
saber identificar as ferramentas utilizadas pelos nossos antepassados ou em
que período geológico se formaram determinadas zonas da gruta.
Texto - Jornalista
Isabel Falcão

ESPELEOLOGIA
- Quaisquer
sejam os motivos pelos quais queiramos tomar contacto com o Mundo Subterrâneo,
a sua razão encontrar-se-á sempre guardada na nossa mente.
Cada um de nós quando, pensa numa gruta, desenvolve diferentes cenários
compostos pelas histórias e lendas ouvidas desde pequeninos. Sejam
contadas por Júlio Verne ou pelos nossos avós, essas histórias
alimentarão para sempre a nossa imaginação de tesouros
escondidos, monstros, novos mundos e mouras encantadas. Há ainda a
inevitável vontade de descobrir, de entrar onde nunca ninguém
esteve e de ser o primeiro a ver as inúmeras maravilhas do Mundo
Mineral. Em suma, num único local podemos ser descobridores como
Cabral, astronautas como Armstrong ou simples espeleólogos com o
privilégio da contemplação do último reduto terreno, ainda
não totalmente explorado pelo homem.
-
- A espeleologia
é assim: uma ciência porque estuda a formação
e desenvolvimento das grutas ; um desporto porque tem uma actividade e um
envolvimento físico intenso e porque é divertida e fascinante.
-
- Aliada
desde sempre à Montanha, a espeleologia herdou da escalada clássica
os seus materiais e técnicas que, com as adaptações
necessárias, permitiram atingir dentro das grutas maiores profundidades
e distâncias de uma forma mais segura e rápida.
-
- Assim,
entre as características do material para a prática da espeleologia
encontramos, o seu baixo peso, a sua grande resistência e a sua versatilidade,
o que permite ao espeleólogo com um reduzido número de material,
efectuar as diferentes técnicas necessárias à sua progressão
horizontal e vertical.
-
- Em
Portugal estão inventariadas mais de duas mil grutas, distribuídas
pelas regiões calcárias situadas entre o sul de Coimbra e o norte
de Lisboa e também na Serra da Arrábida e Algarve. Por todo
o país existem cerca de 35 grupos em actividade, com os quais, e
só com os quais, se recomenda a aprendizagem e prática da Espeleologia.
-
AS
GRUTAS
- As
grutas são cavernas calcárias que devem a sua existência à
lenta e constante acção da água e aos produtos químicos
nela dissolvidos.
-
- Os
maciços calcários quando afloram à superfície,
entram em contacto com a água da chuva. Esta, devido à absorção
do dióxido de carbono torna-se ácida e capaz de perfurar a
rocha dura.
-
- A água
corre assim entre as fissuras da rocha, alargando-as e criando simultaneamente
grandes poços e chaminés chamados "Algares" e grandes
corredores a que chamamos "Galerias". Por vezes, essas galerias
alargam-se em câmaras devido à queda sucessiva de blocos seu
tecto, a estas chamamos salas, podendo atingir dimensões colossais,
com mais de 500 metros de altura e com bases que podem atingir milhares
de metros quadrados.
-
- Mas
a acção da água não se resume à dissolução
das rochas. A força da gravidade faz com que a esta se escoe para
níveis cada vez mais baixos, que só se esgotarão quando
a água atingir um nível completamente impermeável,
criando assim um lençol freático.
-
- Pelo
caminho a água, ao encontrar espaços abertos, liberta o dióxido
de carbono absorvido, perdendo a capacidade de retenção dos minerais
e depositando a cálcite dissolvida do calcário, que precipita das
fendas, fazendo nascer formações calcíticas de rara
beleza que se traduzem por estalagtites, quando no tecto, estalagmites se
no chão.
-
- Em
todo este processo de milhares de anos, temos ainda os pequenos lagos onde
a calcite cristalizou em espectaculares polígonos romboédricos
que contrastam com a espantosa aragonite ortorombica, esse espantoso mineral
branco e em forma de arbusto.
-
- Mas
o Mundo Subterrâneo não é isento de cor. Os componentes
do calcário, decoram as grutas de tons que vão do vermelho
dos óxidos de ferro aos azuis do chumbo, nunca esquecendo o brilho vítreo
do branco das formações calciticas quando muito puras.
-
- Assim,
neste mundo quase estritamente mineral, há ainda lugar para algumas
formas de vida. Entre elas existe o mais misterioso mamífero terrestre,
o Morcego. Sendo o mais diversificado, mais de mil espécies, é
também o que está em maior perigo de extinção.
A sua baixa natalidade, apenas uma cria por ano e a capacidade de reprodução
só após o quarto ano de vida, faz dos morcegos um animal extremamente
vulnerável.
-
- Em
Portugal, existem 27 espécies de morcegos, o que constitui quase
40% da nossa fauna de mamíferos terrestres, cerca de metade são
cavernícolas.
- A sua
grande importância ecológica, revela-se na capacidade de
cada animal poder consumir numa noite mais de metade do seu peso (mais ou
menos 20g conforme a espécie) em insectos. O seu impacto no ecosistema
é grande, se pensarmos que em todo o país diversas espécies
consomem diariamente algumas toneladas de alimento.
-
- Em
Portugal foi recolhida informação respeitante a 22 mil morcegos
cavernícolas que procuram as grutas por dois motivos importantes:
para hibernarem e para se reproduzirem, ocupando igualmente as cavidades
nos dois períodos intermédios. Os morcegos escolhem cavidades
diferentes para as diferentes finalidades, tendo em conta as condições
de humidade e temperatura. Ao longo do ano a temperatura de uma gruta tem
uma variação que não vai além de três
graus, podendo mesmo considerar-se que corresponde à média
anual cerca de 16º. No que respeita à humidade, a variação
poderá ser grande, não durante o ano mas de gruta para gruta.
Assim, os morcegos escolhem as mais húmidas para a hibernação,
pois perdem menos água na respiração.
-
- As
grutas assumem um importante protagonismo no estudo de várias disciplinas:
da história, como importante arqueosítio não removido
pelos agentes atmosféricos ou pelo homem; da biologia, pelo estudo
da fauna cavernícola; da geologia, pelo estudo da formação
da Terra; da geografia, pelo estudo climatérico e hidrográfico;
e da química, pelos fenômenos de cristalização,
alguns deles, únicos na Natureza.
Texto - Gabriel
Mendes